Sólida realidade

Sempre fui consumista de carteirinha, assumo.

Ultimamente, como num passe de mágica, nenhuma vitrine me atrai, nenhuma promoção me emociona, nenhum vendedor me convence.

Evolução? Sinceramente não sei.

Talvez eu esteja experimentando um sentimento absolutamente desconhecido: o desapego.

Não, eu não virei budista, nem estou engajada em qualquer movimento neosocialista (rs!).

Só estou fazendo uma faxina na minha alma.

As coisas materiais definitivamente não me completam.

A tragédia ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro me deixou um questionamento indigesto:

QUAL O SENTIDO DE PASSAR A VIDA ACUMULANDO COISAS QUE SE VÃO EM QUESTÃO DE SEGUNDOS?

Imediatamente entendi o significado da frase de Marx, que deu origem a obra mais famosa do filósofo Marshall Berman: “Tudo que é sólido se desmancha no ar.”

Ao deparar com situações que nos relembram a transitoriedade da vida, as coisas supérfluas perdem o sentido.

Certa vez ouvi uma lenda que retrata bem isso:

Os discípulos de um yogue tibetano o encontraram em um cemitério abandonado, deitado há alguns dias sobre um túmulo.

Assustados, perguntam o motivo de tal atitude, ao que respondeu o grande sábio:

“Quando estou esquecendo de minha passageira vida, venho ao cemitério para revigorar minha consciência da transitoriedade da vida e das coisas”.

Traçamos planos megalomaníacos, como se fossemos eternos.

Adquirimos bens como se fossem eternos.

Aprendemos que o sucesso ou o fracasso depende da nossa capacidade em adquirir bens, administrá-los e conservá-los.

Só esquecemos que tudo que existe tem começo, meio e fim.

Ao nos esquecermos disso, desviamos nossa atenção das realidades concretas da vida. 

Que esses eventos nos sirvam como um alerta, no sentido de nunca perdemos a consciência da transitoriedade e impermanência da vida e das coisas.

Só assim seremos capazes de direcionar nossas vidas para o que realmente tem valor: a solidariedade e amor!

Isso, enxurrada nenhuma é capaz de destruir…

Francine Maria Carreira Marciano

Sobre blog Mosaico Prosaico

Advogada especialista em Direito do Consumidor, observadora, curiosa e aprendiz!
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6 respostas para Sólida realidade

  1. bhmachado disse:

    O problema maior é a forma como educamos nossas crianças, com o conceito de “tem que ter”, ou, pior ainda, o conceito de premiação por bons comportamentos, boas notas etc. Esse é o embrião de uma sociedade cada vez mais focada no consumo. Você é feliz quando tem, quando ganha etc. Ou seja, tudo é constituído sobre vantagens e premiações, daí a dificuldade de as pessoas tomarem uma atitude como a que vc cita, de desapego.

    E eu tbm tenho de admitir que sou consumista também. Principalmente quando se trata de livros. Há vários deles a me esperar em casa para serem lidos e eu continuo os comprando. Leio um, quando termino e passo pro próximo da fila, essa já aumentou com novas aquisições (rs), é um caso muito sério. Também sofro daquilo que, entre os músicos, chamam de G.A.S – Gear Acquire Syndrom. Houve um tempo em que tive gastos substanciais com equipamentos, sendo que muitos deles não tinham uso no meu set up…rsss

    Bem, continue a escrever neste blog. Você está de parabéns e suas palavras são sábias e iluminadas, acredite.

    Bruno

  2. Priscilla Marciano Zanfirov disse:

    Li, com muita atenção o que vc escreveu. Nosso Senhor Jesus Cristo simplesmente não tinha um lugar para encostar a cabeça e quem é o SENHOR! Os grandes Reis, que simplesmente possuiam tudo, hoje não sabemos sequer quem foram. Enfim, esse é o grande paradoxo da vida.

    Conta que o filósofo Diógenes — conhecido como “filosófo do barril”, pois não tinha roupas para vestir e colocava aquele recipiente para vinho em volta do corpo — estava apreciando o crepúsculo, quando lhe apareceu Alexandre, o Grande. Este conquistador de quase o mundo inteiro e sendo educado pelo filósofo Aristóteles, disse a Diógenes: “pede o que quiser que lhe darei”.

    Diógenes disse, com a sapiência que lhe era peculiar: “Por favor, ande com seu cavalo um pouco mais para a direita, que vc está atrapalhando minha visão do por do sol”.

    Quem tinha tudo?

    Bjs.

    A J Marciano, seu pai.

  3. Quanta gentileza disse:

    Tudo passa…mas diante de uma tragédia as lembranças devem ficar para sempre na memória. Como disse Madre Teresa de Calcutá “Palavras gentis podem ser curtas e fáceis de falar mas os seus ecos são infinitos”. Mais do que palavras gentis…gestos, doação, ajuda e solidariedade…isso não passa. Isso fica pra sempre em forma de gratidão.

  4. A vida é feita de escolhas.
    Acredito que quanto maior a bagagem, mais cansativa e estressante é a viagem.
    Desapego talvez seja exatamente a possibilidade de viajar leve. Carregar somente o necessário para poder apreciar o que realmente vale a pena.
    Jesus nos deixou essa lição do paradoxo de Deus: o MAIOR é aquele que SERVE e doa a sua vida por AMOR!

  5. Edson Sélos disse:

    Olá… antes tarde do que nunca… rs
    hehe… Bruno vc não é o único na vontade sem limite em adquirir livros. O que me consola é a explicação que dou para eu mesmo de que estou montando minha biblioteca e no futuro quando terei muuuito tempo ficarei lendo todos os livros, mesmo sabendo que este futuro pode não chegar… cruzes… rsrs

    Acho que a palavra EQUILÍBRIO ajuda muito nesta hora de desapego. Eu sempre me pego dizendo, “a vida é muito curta e valiosa para ficar apegado a determinadas coisas”… VIVA!

    Sei que é difícil em um mundo que diz “vc só é se vc tem”.

    Tento buscar o EQUILÍBRIO. Como achar o Ponto de EQUILÍBRIO? Caindo e Levantando… Caindo e Levantando… até que vc começa a cair menos ou as quedas não são tão “grandes” quanto parecem, quando isso acontece (acredito) que seja porque vc está se desapegando. Digo acredito pq às vezes as quedas ainda são GRAAANDES rsrs… Abraços

  6. Bruno Machado disse:

    Pô, Edson, eu tbm dou essa desculpa da biblioteca!rs Mas, assim. eu até consigo ler os tais livros, o problema é que eles se acumulam…hahaha. Mas, mesmo assim, eu consigo lê-los (rs).

    Mas, o lance do set up foi severo, meu amigo…chegou a um ponto em que não dava pra levar ninguém no meu carro, pois ele estava sempre entulhado de equipamento. Então, espera aí, tocar deve ser uma diversão entre os amigos…certo? Logo, qual o sentido de eu acumular tais quinquilharias e ter de pegar a estrada sozinho?
    Livrei-me de muita coisa e, hoje, uso um set relativamente modesto, composto por dois amplificadores, duas guitarras, um violão, um wah-wah, uma distorção com simulador de válvulas, um multiefeito que uso para turner e uma interface de captação externa. Hoje é apenas isso. No passado, essa relação já foi muito maior, entre racks, pedais diversos, boards, equalizers etc. Um verdadeiro inferno!rs
    Isso durou até eu ter a coragem de me desapegar e refletir acerca do ensinamento de Randy Rhoads (R.I.P), de que o timbre de um músico não está em toneladas de equipamentos, mas, sim, em suas mãos e, sobretudo, em seu coração.
    Por enquanto, vou tentando…rs

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